terça-feira, 28 de outubro de 2008

Qualidades do ser


Ser bom é um desafio.

A maldade é um convite.

Ser livre é uma conquista.
O acomodado é prisioneiro de si.

Ser racional é uma chatice.
A paixão é um êxtase.


Ser inteligente é uma atitude.
A burrice é uma passividade.


Ser viril é ter massa cinzenta.
Impotente é o que se fortalece em músculos, mas não pensa.

Ser bobo é ter senso de humor.
A sisudez é a incapacidade de externar a própria bobeira.

Ser palhaço é usar a inteligência para ficar idiota.
Idiota é o burro metido a inteligente.

Ser humilde é um predicado surreal.
Para ser simples basta ser real.

Ser egocêntrico é saber descrever as próprias qualidades.
O contrário disso não está na gente.


Ser flexível é saber mudar de opinião e reconhecer o erro
.
Errado é não defender a sua retórica se ela é verdadeira.

Ser passivo é uma covardia.
A atitude malfadada ainda é melhor que a inércia.

Ser pacífico é praticar a paz todo dia.
O covarde é aquele que se renuncia a isso.


Ser democrático é aceitar a opinião alheia
Ainda que você não concorde com ela.

Ser honesto é ser normal.
Desonesto é o normal dentro do sistema.


Ser otimista é ter a coragem dos inconseqüentes.
O pessimista carrega o temor dos precavidos.

Ser sonhador é uma dádiva.
Realizar o sonho é uma revolução.

Ser trabalhador é servir ao ofício.
Servir ao sistema é escravidão.

Ser batalhador é uma qualidade.
Lutar por aquilo que acredita é louvável.

Ser autêntico é dizer o que pensa.
Fazer o que diz é um ato de coragem.

Ser altruísta é nobre.

O individualista tem o espírito pobre.

Ser forte é levar um tapa sem revidar.
Fraco é o que não sabe perdoar.

Ser feliz é ser capaz de buscar a felicidade.
Encontra-la é apenas um fugaz estado de espírito.


Ser humano é ter espírito, corpo e mente.
É saber viver com bicho, planta e gente.

Texto: Luciano Soares

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A queda do muro do liberalismo


Numa alusão à queda do muro de Berlim, em que se pôs fim, simbolicamente, ao comunismo, falemos agora sobre a queda do muro do liberalismo, que começa a vir a baixo, impulsionado pela crise econômica mundial. (Acima, ilustração de capa da revista "A Classe Operária", ed. 302 de set./2007)

Nos Estados Unidos, país incubador das crises de 1929 e 2008, o governo tomou medidas que vão na contramão do liberalismo, ou do neo-liberalismo, implantado no Brasil pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Lá, bancos privados começam a ser estatizados ou têm parte das suas ações compradas pelo governo. E isso, por conseqüência, tem ocorrido na Europa também. É a forma que os Chefes de Estado encontraram para assumir a direção da nau, num momento em que gestores irresponsáveis quase a afundaram.

Alguns analistas já classificam a atual crise mundial como o colapso do capitalismo. Há os otimistas que a vêem como uma grande lição para que os erros não venham a ocorrer novamente. O problema é que será um para-casa difícil de resolver. Os Estados Unidos acabaram colocando o mundo refém de uma situação sem precedentes na história. A paranóia dos bancos americanos em liberar créditos em situação de alto risco, sem medir as conseqüências disso para o futuro, acabou resultando na presente conjuntura macroeconômica.

De uns anos para cá, o crédito passou a ser um grande produto do capitalismo. Com a boa situação econômica nos países ricos e nos emergentes, como o Brasil, emprestar dinheiro a juros, ou financiar casas e automóveis, passou a ser um grande negócio. Mas no mercado de capitais a desconfiança é a grande ciência dos investidores. O problema é que o mundo virou refém de uma monocultura, ou seja, do capital, de forma que ele virou o sustentáculo da economia mundial, mais até que comódites como o café e petróleo. Essa condição levou vários países a atravessar, inclusive, uma grave crise de alimentos. Por quê? Porque os produtores vão investir naquilo que lhe trouxer uma melhor compensação.

No capitalismo o que manda é o lucro. Onde estiver dando mais, o produtor ou o investidor vai colocar o seu dinheiro. As conseqüências disso são uma incógnita. Os culpados de um possível colapso não terão nome, nem rosto.

A não intervenção do Estado no mercado, como reza a cartilha do liberalismo, deixa surgir uma face meio troglodita a partir da reflexão de que, no capitalismo só sobrevivem os mais fortes. E esse Golias da economia delimita seu território e impõe regras. É a velha história de os grandes engolirem os pequenos e se tornarem maiores do que são. Tudo isso vai criando um cenário coorporativo de proporção planetária. As provas disso estão no fato de uma meia dúzia de bancos privados quebrarem por causa da crise e derrubarem as principais bolsas de valores do mundo.

Por que isso acontece? Porque os investidores só colocam o seu capital onde houver a garantia de lucro. A qualquer sintoma de prejuízo, lá vão eles tirarem seu dinheiro dos fundos de investimentos e guardarem debaixo do colchão. Mas o mal maior não é necessariamente o dinheiro deles, porque o problema da economia mundial não é de liquidez e sim de falta crédito, o fato é que, com o clima de desconfiança o crédito fica mais difícil, os juros começam a subir e o dólar também. Com a falta de crédito, empresas param de investir, cai a produção e demite-se funcionários. E isso quer dizer: recessão e baixo crescimento.

Essa situação põe em cheque a própria política cega do liberalismo, lógica que se opõe ao comunismo. Não julgo ideal a política liberalista do façam o que quiserem e salvem-se quem puder. O Estado Democrático deve sempre prevalecer, e que ele seja regido por uma política, de certa forma, paternalista, em relação ao ser humano. De que adianta alguém estar lucrando milhões se outrem morre de fome? Que benefício terá o homem e a sociedade se as bolsas estão batendo recordes de altas. É necessário ser pragmático no que diz respeito aos efeitos disso na qualidade de vida das pessoas. E é aí que entra o Estado, na minha concepção de economia pró-social.

Infelizmente a obsessão e o egoísmo são inerentes do ser humano e, nesse caso, o individualismo sempre fala mais alto. Esse é um sentimento que se satisfaz dentro de um prostíbulo chamado liberalismo, onde o capitalismo é a prostituta, o dinheiro é a genitália, e o lucro é um orgasmo.

Luciano Soares

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Cinco anos depois

Em sete de setembro de 2003 publiquei na Gazeta de Minas o meu primeiro artigo. Assim, portanto, na última edição, completei cinco anos como cronista e articulista do jornal. Parece que foi ontem que apresentei ao João um projeto, metido a inovador, chamado Gazeteen. O primeiro número saiu no dia 7 de setembro de 2003.

Era um caderno de oito páginas que tinha como alvo principal o público jovem. O suplemento, quinzenal, era encartado dentro do jornal, num formato duas vezes menor que a Gazeta. Na época, escrevia o editorial e uma coluna, assinada por um personagem criado por mim, denominado Zé Cri-Crítico. Dois anos depois fui convidado pelo editor para assumir, semanalmente, uma coluna de opinião na própria Gazeta de Minas. De lá para cá não parei mais de escrever.

Já como estudante de jornalismo, encarei esse desafio sem saber direito a responsabilidade que me era atribuída naquele momento. Quando me sentei à frente do computador para digitar as primeiras palavras, não tinha a exata noção das conseqüências e efeitos que poderiam surtir a partir do meu texto. É claro que não estava compondo algo que levasse à revoluções sociais. Não tinha, nem tenho a pretensão de conceber obras do tipo “On The Road” ou “O Manifesto Comunista”, mas, de qualquer maneira, estava escrevendo para milhares de pessoas.

Confesso que não tinha, naquela época, muita noção do poder que as palavras têm. Só consegui medir isso quando o feed back começou a ocorrer, ou seja, quando recebia cartas e e-mails de leitores ou quando era abordado por pessoas nas ruas para comentarem os meus artigos. Aí sim comecei a sentir a responsabilidade que recai sobre o articulista. Ele, sem sombra de dúvidas, é um formador de opinião. As suas idéias servem de referência para a consciência de muitas pessoas acerca de várias coisas.

Durante esse tempo, fui bastante incisivo ao defender os meus pontos de vista, mas nem assim deixar de respeitar as opiniões que diferem às minhas. Não concordar é uma coisa, respeitar é outra. Sempre defendi que em um texto informativo deve haver total isenção por parte do jornalista, mas no texto opinativo o autor tem que ser parcial, tem que colocar as suas opiniões, e ter bons argumentos para defendê-las. Não existe jornalista imparcial, existe jornalista isento.

Na minha coluna nunca deixei de apresentar minhas opiniões, mesmo que nelas estivessem intrínsecos o meu sentimento e o meu ideário social e político. Defender a sua verdade é uma coisa, ser panfletário é outra completamente diferente. Sei que tenho uma grande arma nas mãos e a usarei, sempre que possível, contra injustiças e hipocrisias.

Queria ter o poder de mover multidões, de desencadear grandes movimentos, mudar o mundo com as minhas palavras. Queria ser um Ghandi ou um Luther King, mas sei que não vou entrar para a história como eles. No entanto, ainda assim, procuro dar a minha pequena contribuição. È claro que essa proporção esta para um beija-flor que leva água no bico para apagar um incêndio na floresta, minimamente faço a minha parte.

Hoje já com certa experiência, procuro fazer as coisas com mais cautela, mas sem deixar de ser combativo. Nesses cinco anos procurei não me acovardar ante os fatos, nem me deixei levar pela paixão, fazendo afirmações inconseqüentes. Sempre tomo o cuidado de conferir tudo o que escrevo, e de comprovar certos dados, a partir de várias fontes. Responsabilidade e ética é um dever moral e profissional do autor, e, acima de tudo, é uma forma de respeito pelo leitor.

Hoje, cinco anos depois, já perdi as contas de quantos textos escrevi. Já discorri as minhas redações abordando os mais variados assuntos, mas o melhor de tudo é que, além de ter recebido essa tribuna para falar em nome da minha gente, sempre escrevi com total liberdade. Nunca recebi nenhum tipo de censura por parte do editor, mesmo que as minhas farpas prejudicassem o interesse comercial do jornal. Hoje só tenho a agradecer por ter esse espaço, e saúdo ao meu leitor afirmando que, não sou o dono da verdade, mas me norteio sempre por ideais de liberdade, igualdade e justiça.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Como musgo na pedra

Em Oliveira, cultura brota como musgo na pedra. È impressionante a vocação cultural dessa terra e a produção artística quase ininterrupta, mesmo com pouco ou quase nenhum incentivo a isso. Por aqui, quase não se usa os mecanismos de incentivo à cultura, disponibilizados, tanto em nível estadual, quanto federal. No município não há nenhuma forma de mecenato real, ou lei, que permitam a renúncia fiscal por parte do poder público, de forma que esse recurso possa ser aplicado em projetos culturais, em parceria com a iniciativa privada. No Brasil nunca se liberou tanto recurso do orçamento federal para a pasta da cultura. Só no estado de Minas Gerais, em 2007, foram aplicados 140 milhões de reais e do governo federal quase um bilhão, para projetos culturais. É um segmento que tem crescido muito e, do ponto de vista econômico, tem se tornado um forte aliado no desenvolvimento desse país. Sem falar na qualidade de vida, na educação, segurança e conhecimento, que ela proporciona às pessoas.

Nesses últimos dois meses tivemos gratas notícias acerca da arte que brota “como el musguito en la piedra”. No início do mês de julho esse jornal publicou uma matéria sobre o lançamento do quinto disco da experiente e consagrada cantora, Titane. Algum tempo depois o jovem e talentoso músico oliveirense, Saul Flôres, lança seu primeiro CD. Também em julho desse ano a Gazeta publica matéria sobre o lança mento do livro de estréia do jovem Fabrício Souza. E nessa edição publica a cobertura do lançamento do quarto livro de um escritor de 87 anos. Vê-se aí que há uma renovação continuada da arte local e, independente disso, os veteranos artistas continuam produzindo. Como escreveu o poeta: “E vai brotando, brotando...
Como o musguinho na pedra. Como o musguinho na pedra, há sim, sim, sim.”

Sobre o livro recentemente lançado pelo escritor Nelson Leite, ou pelo amigo Tinelson, creio que ele nos faz refletir, não apenas sobre a obra que nele está constada, porque suas crônicas, de certa forma, cumpriram individualmente o seu papel ao serem publicadas na Gazeta de Minas. Reunidas no “Canto do Cisne”, elas se transformam numa pequena bomba contra a hipocrisia, a sisudez e o mau humor. Mas, acima de tudo, esse livro nos faz pensar no papel do autor. Na responsabilidade que recai sobre o articulista ou cronista quando, na frente dele, é aberta a lauda vazia, e sobre ela é atribuída ao escritor a função de botar o dedo na ferida do sistema, do status quo...

Como colega de Nelson Leite nessa árdua missão de escrever acerca do cotidiano, das glórias e vicissitudes que recaem sobre essa brava gente brasileira, sei o que este livro representa. Posso afirmar que ele é o retrato da nossa história, contada por meio de recortes do dia-a-dia, feitos a partir da ótica de alguém que concebe uma visão extremamente crítica. Um olhar que posterga a própria capacidade física de apenas ver. Ele bebe a mais fútil realidade e depois nos conta em detalhes extraordinários. E é isso o que deve cantar por esse mundo afora o cisne que o nosso velho poeta resolveu criar no fundo do quintal da sua sapiência.

Espera-se, porém, que a partir de aqui a lenda seja quebrada. Que o “Canto” desse cisne não seja o derradeiro. Que esse Matusalém das alterosas continue errando pelas nossas ruas, galanteando as mulheres, caçoando dos que não bebem e se sentando ao lado daqueles que o fazem. E é ali, nos lugares mais simplórios, onde a vaidade não é convidada a entrar, que iremos encontrá-lo. No reduto dos sábios. Ele gosta de afirmar que o dinheiro, definitivamente, não gosta dele. Mas você, Nelson Leite, “é” mais do que “tem”. O seu “ser” certamente ficará na história. E se materialmente algo tivesse, isso se esvairia como se esvaem as coisas fúteis. Você será eterno enquanto dure a sua obra.

O Canto do Cisne não é uma constatação, mas a confirmação de que, como ele mesmo diz: “Não se conta a idade dos homens pela seqüência dos anos, mas pela vibração do espírito”.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

VIVA EVO

Morales obteve 60 por cento de apoio dos eleitores bolivianos no referendo de domingo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Sinais de amadurecimento político

O debate entre os candidatos a prefeito de Oliveira, ocorrido no último sábado, mostrou uma outra cara da política local. Um rosto menos sisudo, menos maquiado. Viu-se ali um amadurecimento do político oliveirense. Um debate de alto nível com exposição de idéias, comunhão e divergências de opinião, perguntas inteligentes e respostas pertinentes. Há que se destacar também a organização do evento, que pode conduzir as discussões com igualdade para todos os candidatos, com a ajuda de um conselho editorial quase isento, que muito contribui para o desfecho brilhante da iniciativa. A nossa democracia, o nosso direito à informação e a livre exposição de idéias, saíram dali mais fortalecidos.

Tudo isso é o que se espera para o pleito municipal de 2008. As campanhas políticas em Oliveira ainda demonstram sinais de amadorismo. Não se contrata assessorias de marketing, de comunicação, administrativa ou jurídica. Não se vê aquele profissional pago para desenvolver um trabalho sobre a imagem e a linha política do candidato. O que se tem normalmente é um grupo de voluntários que se envolvem gratuitamente na campanha a troco de um cargo de confiança caso o seu candidato vença. No entanto, não vejo aí tanto prejuízo na qualidade da campanha, mas espera-se deles uma campanha com menos ataques e mais exposições de idéias, com menos blá blá blá e mais planos de governo, de preferência autenticados em cartório.

As novas leis eleitorais dificultaram o trabalho dos marketeiros de política, mas por outro lado obriga os candidatos a desenvolverem campanhas mais limpas, sem uso de recursos como shows e distribuição de brindes e gratificações, como que se fosse uma troca mascarada de produtos por voto. Mas ainda falta endurecer para cima dos políticos e de seus cabos eleitorais. Infelizmente a compra de votos é uma realidade muito presente em Oliveira. É triste imaginar isso, mas é a mais pura verdade. É uma desonra para quem vende, mas muito mais vergonhoso para quem compra, porque este demonstra a sua corrupção antes mesmo de assumir o cargo que pleiteia. Esse tipo de político é sujo e sem caráter. Ele explora a miséria, não só financeira, mas principalmente, cultural, das classes menos privilegiadas.

Tudo isso só faz mostrar que cada vez mais é necessário investir na educação, no esporte e na cultura. A educação instrui, o esporte livra o jovem da vulnerabilidade e a cultura liberta e expandi o pensamento. Se quisermos um futuro mais humano, mais justo, é necessário desbravar esses caminhos e convidar as pessoas a segui-lo. De qualquer forma, enquanto esse futuro não chega, é preciso identificar e punir os que praticam essa covardia, aqueles não têm capacidade de vencer no voto e compra a sua vitória com o dinheiro sujo que enxovalha a política e seus homens.

Por falar em sujeira, conclamo a toda a população a observar quem são os candidatos que andam sujando a cidade. Se houver um monte daqueles papeizinhos espalhados pelo chão, vamos fazer questão de catar e ver que é o “santinho” que está aparecendo ali na foto, aí vamos eliminando: Sujou as ruas, não tem meu voto! É muito mais cordial e econômico entregar o material de campanha de mão em mão.

De qualquer forma creio que a situação já foi pior. Pelo menos agora já não temos, pelo menos aqui, aqueles currais eleitorais comandados por uns coroneisinhos incultos cheirando a bosta de vaca impondo o voto de cabresto. E se voltarmos mais no tempo, o simples fato de termos construído uma democracia e conquistado o direito de escolhermos os nossos representantes já é um grande passo rumo a uma cidade mais justa e digna.

De qualquer forma vamos abrir o olho. Nada de comprar votos e nada de sujar a cidade.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Encontrando a paz na terra de Milho Verde


A relação entre homem e terra existe desde que o homem é homem e que terra é terra. Esse amor aumenta quando nossos antepassados, meio homem, meio macaco, com a terra teve contato. Plantou semente, choveu chuva, virou terra um charco. Colheu-se mandioca, beterraba, jenipapo... Jujuba, couve-flor, abóbora madura. Criou-se, então, a agricultura.
Revolver a terra, tirar dela o barro, construir moradia, colher o alimento de todo dia. Dos serviços mais básicos e certos à inspiração do poeta que cria e lhe remete versos, tudo nos é dado pela terra. Dos quatro, ela é o primeiro elemento, seguido da água que é rio, do fogo que é calor e do ar que é vento. Terra é montanha, é firmamento, é planeta. Terra molhada é boa, terra sem chuva é seca. Terra é mãe, é avó. Terra é chão, é pó. Pó que viemos e ao qual voltaremos.
Mas de repente tudo mudou na cabeça da gente. Namoro do homem com a terra acabou. Solo macio ficou duro, escuro. Asfaltou. Charrete virou auto. Rua de terra virou asfalto. Tudo sem graça. Poesia sem rima. Minhoca por baixo, carro por cima. O verde apagou, ficou cinza. A mata ficou que é concreto só. Uma tristeza de dar dó. Prédio agora é “mato”. Gente por cima, gente por baixo... O rio ficou triste e chato. Sujeira das fábricas, esgoto dos vasos. A chuva que entrava na terra e nascia em nascente, agora enche em enchente. Mata gente. O canto do bem-te-vi já não há, é buzina daqui, sirene de lá. O ar já não dá pra respirar. Vizinhos não conhecem uns aos outros. Cisma-se com tudo, desconfia-se de todos.
Oh natureza, onde está sua cor, sua beleza, sua paz, seu sabor?
Procuro daqui e dali. Inda hei de achar. Parto em busca de ti. Devorando o horizonte cheguei ao alto daquele monte. E você lá estava linda como esperava encontrar. Pura e original. As matas em seu verde, o rio em seu caudal. Um pequeno paraíso chamado Milho Verde, cidade, vila ou arraial. Nesse lugar água se bebe na mina, fruta se come no pé, ar puro se respira, oração se reza com fé.
Cama lá é rede, rua é de terra, grama é tapete, fechadura é cancela. Lá, vizinho se conhece, conversa, versa. Tudo se resolve num dedo de prosa. Gado é no pasto, milho é na roça. Pinga é da boa, cigarro é de palha. Má notícia não se espalha. Folia de reis, moda de viola... Isso pra acabar não tem hora. O que não falta é assunto. Ali se bebe, dança e tem comida pra todo mundo. Tudo se aproveita. Da fruta e da folha faz-se uma receita. Cabaça pequena vira cumbuca, se é grande vira cuia. A pinga vai pra goela, a reza pro santo e o mau agouro prá’s cucuia. Barro vira panela, lenha vira fogo, bambu vira pinguela. Cerca é besteira, planta-se um pé de tomate, uma trepadeira... Cipó vira corda. Cavalo se monta, porco se engorda. Conta lá não se anota: Ou se tem honra pra comprar a prazo ou se tem dinheiro pra pagar com nota.
Tudo isso é lá em Milho Verde, o paraíso que flerta com o céu, e Deus responde ao flerte: Vê-se esse amor no pôr do sol, no nascer da lua. O vento brinca com os galhos, o universo se insinua... Passarinho lança voou... Moça olha na janela... Cachoeira ora é água ora é pedra. O sol pensa que é verão, as flores, que é primavera. Gerações vêm e vão, mas lá o tempo espera. É paz que não termina. Amor do homem com a terra parece enraizado, vivo como água da mina, firme como árvore de jatobá. Tudo isso se vê por lá. Quero voltar a milho verde, deitar-me na rede numa noite de luar. Rever as estrelas, aqueles olhosinhos de Deus que são mais numerosos ali que em qualquer outro lugar.
Texto e foto: Luciano Soares.

quarta-feira, 16 de julho de 2008