quarta-feira, 16 de julho de 2014

O que ficou da Copa



Havia sobre nós o velho estigma de subdesenvolvidos, malandros, desorganizados, incapazes, atrasados e mal educados. Tínhamos uma autoestima tão deteriorada que nós nos reconhecíamos em todos esses adjetivos e nos acomodávamos sobre um enraizado complexo de vira-latas e sobre a esperança de que o Brasil era o país de um futuro que nunca chegava. Uma das poucas coisas que levantava o nosso moral era o fato de sermos o único país a participar de todas as copas, período no qual faturamos cinco títulos e nos tornamos os maiores campeões mundiais de futebol.

Desde que o Brasil conquistou seu último mundial, em 2002, na Copa realizada no Japão e Coreia do Sul, muita coisa mudou. Em doze anos, o brasileiro experimentou mudanças nunca antes imaginadas num período tão curto, quando pôde acreditar que o futuro finalmente começava a lançar sua luz sobre o horizonte tupiniquim. De repente, as pessoas deixaram de escutar o desagradável barulho das máquinas de remarcar preços nos supermercados, a renda melhorou, o povo começou a ter acesso a bens duráveis, ao carro novo, à casa própria, às universidades e às viagens de avião. Chegamos ao posto de quinta economia do mundo.

Embora tenhamos muito a caminhar em direção a esse futuro, principalmente no que diz respeito à saúde, educação, segurança e infraestrutura; ainda que estejamos muito atrasados no campo da política, cujo sistema é cheio de vícios e atalhos para a corrupção; mesmo que necessitemos evoluir enquanto cidadãos, nós, aos poucos, vamos reerguendo nossa autoestima, e essa Copa do Mundo foi a grande prova de fogo a que fomos submetidos. Graças a ela, hoje nós não nos reconhecemos mais somente nos naqueles defeitos, mas também nas muitas qualidades que possuímos, postas a prova diante dos olhos do mundo.

A tragédia que recaiu sobre a nossa seleção, após perder de 7x0 para a Alemanha, em casa, não se fez tão trágica quanto aquela fatídica derrota para o Uruguai, no Maracanã, em 1950. Isso porque, o futebol, embora continue sendo uma paixão nacional, não é mais a nossa prioridade, e já não é o nosso único motivo de orgulho. A derrocada para a seleção Alemã foi histórica, mas acima dela está o reconhecimento mundial de que realizamos a melhor copa de todos os tempos, de que somos um país preparado para realizar grandes eventos, receber turistas do mundo inteiro, e de que, além das nossas belezas naturais, temos um povo amável e valoroso. Graças a esse mundial, tiramos das nossas costas o estigma de subdesenvolvidos, malandros, desorganizados, incapazes, atrasados e mal educados. E ainda que boa parte da mídia brasileira tenha apostado contra, mostramos ao mundo a nossa competência.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Heróis por pouco

(Foto: Reuters)


Entre o herói e o vilão, às vezes, há uma linha tênue, formada por uma fração de segundo ou pelo espaço de alguns centímetros - a largura de uma trave, talvez. Foi o que ocorreu com a nossa seleção no último sábado, e que, obviamente, não se aplica a Júlio César, vilão da última copa, e candidato a herói dessa. Depois de um jogo péssimo, todos esses a quem é atribuído o ato de heroísmo, estariam na panela do diabo, caso nosso adversário não tivesse errado aquele pênalti ou o goleiro não tivesse defendido aquelas bolas. 

O juiz errou no gol anulado do Brasil, mas o Hulk também falhou naquela bola que resultou no gol do Chile, e depois ainda errou um pênalti. O rapaz do hiperglúteo ficou entre a cruz e a espada e foi salvo pelo gongo, assim como toda a nossa seleção. Na minha opinião, faltou o dedo do técnico, que parecia perdido entre os dedos táticos do Parreira, e que ora recebe louros por ter bancado a convocação de Júlio César, a contragosto de muitos. 

É bom lembrar que o gol do Brasil foi feito por um chileno, atrapalhado pelo nosso zagueiro, depois de uma cabeçada do outro zagueiro, ou seja, o ataque não funcionou, nem o meio de campo. Às vezes o otimismo suplanta o temor, a vontade supera a deficiência, e a sorte oculta a incompetência, mas é bom o Felipão colocar as barbas (ou o bigode) de molho, porque a parada começa a apertar daqui pra frente. Vamos, Brasil!

sábado, 14 de junho de 2014

O vandalismo dentro do estádio foi pior


Dois fatos negativos marcaram a abertura da Copa do Mundo no Brasil na quinta-feira, 12 de junho. De fora dos estádios os Black Blocks cometiam crimes contra o patrimônio público e privado. Do lado de dentro, os White Blocks, ou o Bloco da Elite Branca, cometia crime contra a pessoa, previsto no Código Penal Brasileiro, ao agredir uma mulher, mãe e presidente da república.

Foi essa mesma elite mal educada, inculta e mesquinha que praticamente ignorou as apresentações das nossas culturais regionais durante a cerimônia de abertura, simplesmente, porque a desconhece, ou não se reconhece nelas, afinal, aquilo é coisa de “povo”.  Provavelmente, personagens dos parques de Orlando-EUA a agradaria bem mais, ou lhe provocaria maior empatia. Por outro lado, o ponto alto da festa lhe causou frisson, quando surgiram as figuras de Jennifer Lopez, do rapper Pitbull, claro, pelo americanismo que eles representam, e da cantora Cláudia Leite, porque a remeteu ao carnaval baiano, onde a mesma elite branca monopoliza os blocos mais caros, isolando-se, por cordas e seguranças, do povo nativo, pobre e preto.

É essa mesma elite que regozija-se de ter o privilégio de estar onde poucos podem entrar, de não ter entre ela quase nenhum negro, que protesta contra as cotas para afrodescendentes nas universidades e qualquer programa social que aproxime os mais pobres do seu patamar. Está aí o motivo do ódio. Essa mulher que tentam ofender foi quem colocou pobre em poltrona de avião, lugar antes privativo dos ricos, e que encheu de “povo” as filas dos caixas de supermercado, com seus carrinhos abarrotados. Eis causa da cólera dos endinheirados.

É essa elite hipócrita que canta à capela o hino que diz “...dos filhos deste solo, és mãe gentil, Pátria Amada Brasil”. Sim, é mãe gentil de filhos mal educados e ingratos. Típicos filhinhos de papai, que ganham tudo de mão beijada e depois criticam o Bolsa Família, dizendo que é preciso ensinar a pescar, ao invés de dar o peixe. São os filhos deste solo, que ganham viajem para a Disney, mas não recebem educação.

E a hipocrisia dessa elite continua ao constatarmos que a mesma presidente da república inaugurou boa parte dos estádios da copa, durante clássicos regionais, inclusive dando o chute inicial das partidas, bem ao centro do campo, com as tradicionais torcidas brasileiras nas arquibancadas, sem receber uma vaia sequer. Ou seja, estamos falando das mesmas torcidas formadas por aqueles que a elite branca chama de “mal educados”.

Agora, só uma pergunta: Onde será que estavam esses burguesinhos quando a nossa presidente era torturada por lutar pela liberdade que esses idiotas ora usufruem, inclusive, para praticarem sua má educação nos estádios?

terça-feira, 8 de abril de 2014

Um golpe na liberdade e na democracia

*Pesquisa: Luciano Soares

Acompanhe a história da ação militar que há 50 anos depôs o presidente João Goulart e instalou uma ditadura de 20 anos no Brasil



O ano era 1964. O dia, 1º de abril. Mas não se tratava com uma mentira. O país acordou com um silêncio ensurdecedor. Veículos militares com tropas e armamentos se deslocaram de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, sem encontrar resistência. O destino, o Palácio do Catete, sede do Governo Federal, de onde, horas antes, o presidente João Goulart havia saído para nunca mais voltar. Tratava-se de um golpe de estado que a imprensa da época, erradamente, chamou de revolução. Os militares ocuparam o poder, assim como o fizeram em quase toda a América Latina, naqueles fatídicos anos “60”, depondo um político eleito democraticamente pelo povo. Iniciava ali, os 20 anos da ditadura militar brasileira.

A renúncia
O cenário político internacional da época apresentava Estados Unidos e União Soviética travando uma queda de braços, em que cada um tentava impor ao mundo sua ideologia, respectivamente, capitalista e comunista, dentro da chamada Guerra Fria. Em 1959, a vitória da Revolução Cubana ganha a admiração da juventude latino-americana e aumentava o temor americano de uma guinada à esquerda na América Latina.
Em 1960, o Brasil elege Jânio Quadros, candidato apoiado pela UDN, para presidente da República, e João Belchior Marques Goulart, conhecido também como Jango, do partido trabalhista, aliado da esquerda, para vice. Jânio assume o cargo na mesma época que Kennedy vira presidente dos Estados Unidos.
Em 19 de agosto de 1961, Jânio Quadros condecora, em Brasília, o revolucionário Che Guevara com a “Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul”, a mais alta comenda do governo. O gesto foi considerado imperdoável para alguns setores das Forças Armadas.
No dia 25 de agosto de 1961, enquanto viajava pelo Leste Europeu e Oriente médio junto com a delegação brasileira para cumprir uma agenda econômica, Goulart recebe um telegrama pedindo a sua volta imediata para o seu país. De Cingapura, Jango soube da notícia de que o presidente Jânio Quadros havia renunciado.

O desafio de Jango
De volta ao Brasil, João Goulart deparou-se com uma crise política que havia se instalado no país após a renúncia de Jânio. Em meio a conspirações de ministros militares que tentavam impedir sua posse, finalmente, no dia 7 de setembro de 1961, João Goulart foi empossado na presidência da República. Suas primeiras atitudes como presidente foram as de formular um programa que colocava como pontos centrais a defesa de reajustes salariais periódicos, compatíveis com os índices inflacionários, uma política externa independente, a nacionalização de algumas subsidiárias estrangeiras, e as chamadas reformas de base. Dentre essas propostas de Goulart, ganhava destaque a questão agrária.
Em abril de 1962 Jango viaja aos Estados Unidos na tentativa de buscar recursos financeiros junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e discutir os temas que vinham dificultando as relações entre os dois países. A missão foi infrutífera. De volta ao Brasil, Goulart tem que enfrentar graves problemas, como o aumento da inflação, a insatisfação da população e o afastamento do presidente do conselho de ministros que não partilhava das suas iniciativas.
No dia 6 de janeiro de 1963, cerca de 11.500.000, dos 18 milhões de brasileiros aptos a votar, compareceram às urnas para decidir sobre o tipo de regime político que o país deveria adotar. O resultado favoreceu o presidencialismo. Investido dos poderes de presidente, Goulart nomeou um novo ministério e passou a adotar uma série de medidas para tentar estabilizar a moeda.

A conspiração
Como se não bastassem todas as dificuldades na área econômica, Goulart passou a enfrentar um movimento conspiratório que, desde a sua posse, tramava a sua deposição. Sentindo-se isolado, o presidente começou a perder o controle político e militar da situação. Muitos oficiais graduados do Exército, que lhe eram fiéis, passaram a se juntar aos colegas insurgentes.
Numa última tentativa de conseguir aliados, Jango tenta reconquistar o apoio dos setores representados pelos sindicatos, ligas camponesas, entidades estudantis e partidos de esquerda como o PTB, PCB e Partido Socialista Brasileiro (PSB), únicos segmentos com os quais poderia contar naquele momento, tentando uma nova ofensiva rumo ao seu projeto nacional reformista. Por outro lado, os militares, liderados pelo chefe do Estado-Maior do Exército, general Castelo Branco, implementam, no final do mês de janeiro, à revelia do presidente, um acordo militar com os Estados Unidos.
Esse acordo previa a necessidade de assistência ao Brasil para enfrentar ameaças, atos de agressão ou quaisquer outros perigos à paz e à segurança, conforme os compromissos assinalados na carta da Organização dos Estados Americanos (OEA). Já em março de 1964, meses após a morte do presidente John Kennedy, o então secretário assistente de Estado para Negócios Interamericanos dos EUA, Thomas Mann, declararia, que "os Estados Unidos não mais procurariam punir as juntas militares por derrubarem regimes democráticos". Estava dada a senha para o golpe contra Goulart.
No dia 13 de março de 1964, João Goulart realizou um grande comício na Central do Brasil (Rio de Janeiro), onde defendeu as Reformas de Base. Naquela oportunidade, Jango prometia mudanças radicais na estrutura agrária, econômica e educacional do país. Cerca de 200 mil pessoas acompanharam o discurso.
No dia 19 de março, os conservadores representados pela classe média, Igreja Católica e setores da direita brasileira organizam a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, reunindo milhares de pessoas pelas ruas do centro da cidade de São Paulo. Desde então, a agitação contra Goulart ganhou força e uniu contra seu governo proprietários de terras, interesses norte-americanos que conspiravam através da embaixada, e a maioria das forças armadas.
No dia 20 de março, Castelo Branco lançou uma circular reservada aos oficiais do estado-maior e das suas organizações dependentes, alertando a oficialidade para as ameaças que as recentes medidas de Goulart traziam. O cenário para o golpe já estava construído, e o seu desfecho contava com forte apoio dos Estados Unidos dentro da operação “Brother Sam”. - Documentos do serviço secreto norte-americano, revelados recentemente, dão conta de que às vésperas do golpe, uma força-tarefa, formada pela Frota do Caribe, contendo dois porta-aviões e aeronaves de guerra, se dirigiu à costa brasileira, com a ordem de invadir o país, caso as tropas fiéis a Jango resistissem.

O golpe
Na madrugada de 31 de março, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª. Região Militar, sediada em Juiz de Fora (MG), iniciou a movimentação de tropas em direção ao Rio de Janeiro. Tenentes das Forças Armadas tomam o Ministério da Guerra. No Congresso Nacional, a sessão de primeiro de abril passa da meia noite, em meio a muito tumulto. Do Palácio do Planalto, ministros comunicam por escrito que Jango não havia deixado o país. Quando este vai ser lido no plenário, a energia é cortada.
Na noite do dia 1º de abril, Jango viajou para o Rio Grande do Sul com o objetivo de organizar a resistência e defender o poder legal. Contudo, já em Porto Alegre, Goulart decidiu-se por deixar o país, ao reconhecer que lutar para manter o governo significaria desencadear uma guerra civil.
Na madrugada de 2 de abril, o então presidente do Congresso Nacional, senador Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência da República, alegando que João Goulart tinha saído do Brasil. Mas foi só no dia 4 de março que Jango desembarcou no Uruguai em busca de asilo político.

No exílio
Em agosto de 1964, deposto e exilado no Uruguai, João Goulart publica, numa revista de esquerda, um manifesto que acabou sendo lido na íntegra no plenário da Câmara dos Deputados. No texto, Jango destaca seu perfil “liberal” e “cristão” para se distanciar do estigma de comunista que tentaram lhe impor: “Hoje, lançam contra mim toda a sorte de calúnias. Sei que continuarão a injuriar-me. Mas o julgamento que respeito e que alguns temem é o do povo brasileiro”, escreveu Jango, para quem a imprensa da época teve um papel crucial no golpe.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sobre as manifestações e a elite brasileira



Segundo o Datafolha, 51% da população do Rio que ganha até 2 salários é contra protestos. Já entre o segmento mais rico, que ganha mais de 10 salários, a situação é inversa: 71% é a favor.

Há certas constatações nas manifestações do Brasil que derrubam mitos e remontam fatos históricos. Um deles diz respeito aos motivos que levaram e levam milhares de pessoas às ruas. Tudo começou com um aumento de 20 centavos nas passagens dos ônibus urbanos da capital paulista, e que ganhou a solidariedade de todo o povo brasileiro depois da truculência usada pela polícia na tentativa de conter os protestos. Em apoio a eles, a população de outros estados vai às ruas e transforma um protesto local em um movimento nacional.

O sentimento de que o “gigante” havia acordado suscitou entre as massas um dilema: Afinal, o movimento é grande demais para brigar por “apenas 20 centavos”. Agregou-se, então, a essa luta uma causa historicamente necessária: Reformas urgentes no nosso ultrapassado sistema político-partidário e em tudo de ruim que dele emana. O alvo não era, portanto, denominações políticas ou bases ideológicas, mas a forma como a política vem sendo feita no país, desde a instalação da república, no final do século 19, ou mesmo antes dela, no período imperial.

Pessoas de todos os partidos, de todas as ideologias e classes se envolveram nesse grande movimento por mudanças. Mas há aí um fator bastante peculiar. As elites, consideradas reacionárias, por se oporem a grandes mudanças, que, de certa forma, possam por em risco a sua posição, começaram a apoiar as manifestações, possivelmente concluindo que elas possam atingir o governo atual. Por outro lado, a grande mídia, que também faz oposição, abandona sua fiel posição de voz retumbante das elites, para tentar manchar o movimento. Afinal, ela também passou a ser vítima dele.

Um fato interessante se deu no jogo de abertura da Copa das Confederações, quando a presidente Dilma foi vaiada durante sua fala. Muitos tentaram ligar esse comportamento à indignação daqueles que estavam nas ruas. Equivocaram-se na minha opinião. Ora, se considerarmos que o preço dos ingressos eram extremamente altos para aqueles que lutavam contra um aumento de 20 centavos nas passagens, constata-se que estavam ali pessoas com alto poder aquisitivo; se considerarmos que uma das bandeiras do movimento era contra a copa, então, os verdadeiros manifestantes não iriam àquele jogo; se considerarmos que a mesma presidente deu o chute inicial e discursou durante a reinauguração de vários estádios do país, durante clássicos regionais, sem uma vaia sequer, conclui-se que quem a vaiou foram pessoas da elite.

A verdade é que, historicamente, as elites sempre se apropriaram de movimentos legítimos, nascidos do seio da população. Isso ocorreu durante a Revolução Francesa, na Rússia Menchevique e Stalinista, e no próprio Golpe ocorrido no Brasil em 1964. A diferença é que, nessa época, por aqui, as massas não foram às ruas. Pelo contrário, havia esperanças de reformas importantes no país durante o governo Jango. Quem verdadeiramente saiu às ruas foram as elites, dentro do movimento “Família com Deus pela Liberdade”, motivadas pelo “medo do avanço comunista”, pelo reestabelecimento da “ordem pública” (Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência), e por um certo, digamos, dedinho dos EUA. A ação militar naquele movimento acabou ganhando a complacência das massas, alienadas pela adesão da Igreja Católica.

No caso das manifestações 2013/2014 do Brasil, algumas particularidades têm colocado em xeque a eficácia dos protestos em relação aos seus objetivos. Uma delas diz respeito à entrada do movimento Black Bloc, que tem sua ideologia calcada no anarquismo, o que não coaduna com o pensamento da maioria dos manifestantes e da própria população. Outra está na forma como eles protestam, ou seja, com o rosto coberto e destruindo patrimônio público e privado, tendo como agravante a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes e a denúncia de que são pagos para fazerem arruaça. O que dá subsídio para a mídia tentar demonizar o movimento.

A conjuntura atual mostra que esse é um momento crucial na história do Brasil, com a população pedindo mudanças às vésperas de um grande evento, em que os olhos do mundo estarão voltados para o país, e das eleições para presidente, governadores e o parlamento. Por outro lado, há o risco do movimento se deslegitimar por causa da violência que a ele vem sendo agregada. Em meio a isso, vê-se uma mídia entre a cruz e a espada, por ver que as manifestações podem dar força à sua tentativa de tirar do poder a legenda atual, mas, ao mesmo tempo, pode colocar em risco uma copa do mundo, que lhe rende rios de dinheiro. Por isso, é claro, há uma lei sendo discutida no Congresso com o objetivo de classificar como terrorismo alguns atos adotados durante as manifestações. Isso talvez venha resolver o dilema da grande mídia e das elites, que querem ver o circo pegar fogo, mas sem que isso comprometa o seu espetáculo.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Entrevista Especial: A saga de Maria Prestes



De passagem por Oliveira para lançar a terceira edição do seu livro “Meu companheiro – 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes”, Maria Prestes, viúva de um dos maiores líderes comunistas do Brasil, com quem teve sete filhos, concedeu entrevista ao jornalista Luciano Soares. Nessa conversa, ela conta um pouco da saga de sua família, fala também da Coluna Prestes, das perseguições, das lutas, do exílio na Rússia e do livro que lançou na Casa da Cultura Carlos Chagas. Durante sua estadia na cidade, a escritora visitou escolas, conversou com a imprensa e visitou a Câmara dos Vereadores, onde recebeu um voto de aplauso, proposto pelo vereador Lucas Abdo (PRTB). No lançamento do livro, Maria Prestes recebeu homenagens de setores ligados à educação e à cultura, e foi surpreendida pelos estudantes Diego Pugas e Stevan Gaipo que usaram da palavra para pedir desculpas a ela, por sua geração não estar sabendo usar a liberdade e a democracia pela qual ela tanto lutou ao lado de seus companheiros. “É vergonhoso saber que existe pessoas com a história da senhora e a nossa geração considerar o Neymar um herói nacional”, falou Gaipo.

Luciano - Como a senhora se tornou uma comunista?
Maria Prestes - Nasci no Recife, com o nome de Altamira Rodrigues Sobral. Sou filha de João Rodrigues Sobral ("Camarada Lima") e Mariana Ribas Pontes, ambos militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Com dez anos eu já trabalhava com meu pai no partido fazendo campanhas, solidariedade às famílias de presos políticos ou distribuindo materiais. Mais tarde passei a participar de comícios, manifestações, além de fazer ligações da organização partidária do PCB por todo o nordeste.

Luciano - Como a senhora conheceu Luiz Carlos Prestes?
Maria Prestes - A primeira vez que eu vi o Prestes foi em um comício no dia 13 de maio de 1945, quando ele saiu da prisão e foi candidato a senador. Eu era da Juventude Comunista e fui escalada junto com outros companheiros para fazer a segurança dele. Durante essa missão, nunca sequer falei com ele. Em 1947, quando ele teve o mandato cassado, assim como foi cassado o registro do Partido Comunista do Brasil, eu estava em Recife, quando o partido determinou que eu fosse para São Paulo ficar com meu pai que estava doente. E foi lá, no dia 4 de dezembro de 1952, que eu conheci Luiz Carlos Prestes de verdade.

Luciano - Houve um momento em que vocês precisaram deixar o país. Como isso ocorreu?
Maria Prestes - Em 1964, quando ocorreu o golpe no Brasil, nós vivíamos na clandestinidade. Nessa época precisei mudar meu nome para não ser descoberta. Durante seis anos tive minha casa vigiada, chegando a ser roubada e saqueada. O prestes não podia sair na rua, nem sequer falar alto. Nós estávamos vivendo da ajuda dos amigos* e estava ficando muito difícil, por isso eu resolvi migrar para a Rússia. Foi complicado, pois alguns dos meus filhos não possuíam documentos. Precisei fazer uma lista de pessoas que me conheceram com o Prestes para testemunharem que eram meus filhos e conseguir passaporte para eles. Em 1970 eu fui para Moscou sozinha com os dez filhos. O Prestes precisou pegar um avião até Buenos Aires, e de lá para a Rússia  
(*Um documento confidencial do Serviço Nacional de Informações, da época, mostra que uma das pessoas que colaborava financeiramente com a família Prestes era o ator Mário Lago. Luiz Carlos Prestes também tinha o apoio de artistas como Pablo Neruda, Garcia Lorca, Oscar Niemeyer e Jorge Amado).

Luciano - Como foi a vida de vocês na União Soviética?
Maria Prestes - Na Rússia nós vivemos muito bem. O governo deu tudo que a gente precisava. Tínhamos até carro à disposição. Os dirigentes do partido queriam colocar meus filhos em escolas especiais, mas eu não aceitei. Eles foram para as escolas onde os filhos dos trabalhadores estudavam e foi muito bom pra eles. Eu acho que escolas particulares ou especiais já é uma divisão de classes. Outra coisa que eu fazia questão era que falássemos português em casa, para que eles não esquecessem o idioma brasileiro, e isso ajudou muito, porque quando nós voltamos para o Brasil eles não tiveram muita dificuldade com a língua. Naquele país nós vivemos durante dez anos e só retornamos ao Brasil no final dos anos 1970, quando o presidente Figueiredo deu a anistia.

 Luciano - Qual é o perfil de um homem que percorreu 25 mil quilômetros de norte a sul, e de leste a oeste, desse país, à frente da Coluna Prestes?
Maria Prestes - Uma pessoal obstinada por um ideal; um líder comunista; uma liderança no Brasil; que fez a marcha da Coluna Prestes; que conhecia cada pedaço de chão desse país; que sempre defendeu suas ideias; coerente com seus pensamentos; um homem que nunca se vendeu ou corrompeu. Você não vai encontrar na vida de Luiz Carlos Prestes indícios de que ele fez algum compromisso espúrio com alguém. Aprendi e convivi com um homem que valorizava o trabalho da mulher, que fazia questão de dar atenção, de ensinar, de atentar as pessoas sobre a necessidade de estudar, de buscar o conhecimento, de contestar e participar da vida política do país ou do lugar onde vivi.

Luciano - Um dos episódios mais polêmicos na vida de Luiz Carlos Prestes ocorreu quando ele subiu no palanque, ao lado de Getúlio Vargas, homem que entregou sua ex-mulher para os alemães, e que mais tarde viria morrer em um campo de concentração. Porque ele teria tomado essa atitude?
Maria Prestes - Porque o Prestes nunca colocou suas questões pessoais acima da luta em defesa do povo brasileiro.

Luciano - A senhora ainda enxerga o socialismo como um sistema ideal de governo?
Maria Prestes - Sim. Não o socialismo como eu conheci, mas de uma forma que possa resolver os problemas sociais de hoje. Em Moscou, quando eu morei lá, o trabalhador pagava a sua moradia com 10% da sua renda. Havia cooperativas voltadas para a alimentação. A educação era da melhor qualidade. Você colocava a criança na escola de manhã e pegava à tarde. Os que estudavam em meio horário dedicavam-se a estudar àquilo que eles tinham interesse, como pintura, mecânica, ginástica, culinária, etc, e só voltavam para casa quando os pais retornavam do trabalho. Tudo isso era de graça e todos tinham direito. Você não via crianças lavando carro, engraxando sapato ou pedindo esmola. (Infelizmente eu visitei Moscou há dois anos e já vi isso lá). Estive em Cuba também em algumas oportunidades e pude perceber como foram determinantes as políticas sociais naquele país. As escolas de lá são um exemplo e os hospitais parecem hotéis de cinco estrelas aqui. Então, eu acho que habilidade e jeito de transformar e mudar uma situação a gente pode, mas precisa ter interesse em fazer.

Luciano - A senhora está percorrendo o Brasil e a América Latina relançando o livro Meu Companheiro – 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes, de sua autoria. Do que trata o livro?
Maria Prestes - No livro eu não trato muito do lado político, falo mais do lado humano do Prestes. Um homem com quem vivi durante quarenta anos e tive sete filhos (soma-se a eles dois filhos do primeiro casamento e Anita Leocádia Prestes, filha de Olga Benário com Prestes). O livro é bilíngue, com texto em português e espanhol, com o objetivo de atingir os países da América Latina, que sabem quem foi Luiz Carlos Prestes, mas conhecem mais sua história política. O livro traz também um pouco da minha biografia, desde a infância e os altos e baixos que eu tive na vida.

Luciano - Recentemente a senhora doou alguns documento relativos à vida do Prestes para o arquivo Nacional. Porque a senhora resolveu fazer isso agora?
Maria Prestes - Doei documentos que estavam sob meu poder para um museu em Campinas e outros, que solicitei da Rússia, para Brasília. Eu não acho que tenho que manter esses arquivos em casa, a história do Prestes pertence ao povo brasileiro, por quem ele tanto lutou. Esses documentos revelam que o ideal dele era sempre lutar pelo bem estar do Brasil, defendendo a riqueza, o patrimônio, a soberania nacional, a reforma agrária, uma educação decente e melhores condições de vida para os brasileiros. Esses documentos incluem cartas de amigos, de embaixadores e autoridades. É uma forma de dar oportunidade aos historiadores e pesquisadores de descobrirem quem foi o Cavaleiro da Esperança.

Luciano - Como a senhora vê a Comissão da Verdade, lançada pela presidenta Dilma para investigar os casos de torturas e assassinatos ocorridos durante a ditadura militar no Brasil?
Maria Prestes - Vejo como uma forma legítima de mostrar quem foram aqueles personagens que torturaram e mataram pessoas na época da ditadura. Não que eu queira revanche, não estou interessada nisso. Quero que o país saiba que são esses indivíduos, que não podem ser considerados nem seres humanos. Fazer o que fizeram com companheiros nossos não é justo. Até hoje ainda tem famílias que não sabem o que aconteceu com seus entes. Recentemente foi descoberta uma fazenda em campos, onde havia um crematório, cujo fazendeiro, que diz que virou pastor, resolveu falar. Segundo ele, ali comunistas eram esquartejados e suas partes eram dependuradas como se fosse carne de boi, e que depois eram incineradas.

Sugestões de leitura:

“O Cavaleiro da Esperança - Vida de Luís Carlos Prestes” - Editora: Companhia das Letras - Autor: Jorge Amado

“A Coluna Prestes: marchas e combates” - Editora: Alfa-Omega - Autor: Lourenço Moreira Lima

“Anos tormentosos - Luís Carlos Prestes: correspondência da prisão” - Anita Leocádia Prestes - Editora: Vozes.

“Meu companheiro: 40 anos ao lado de Prestes” - Maria Prestes - Editora: Rocco

E ainda o vídeo-documentário “O velho - A história de Luís Carlos Prestes” Direção: Toni Venturi Roteiro: Di Moretti Narração: Paulo José

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Viagem a Cuba



Juntei-me a um grupo de 12 pessoas que se dispuseram a passar dez dias em Cuba, com objetivos bastante parecidos. Algo difícil de explicar, porque só quem carrega sentimentos como o que nós levávamos na bagagem poderia entender. O que vimos lá foi o mesmo que registraram as lentes das várias Canon’s e Nikon’s que nos acompanharam. O grupo se dividia entre jornalistas, fotógrafos e documentaristas.

Uma conexão de oito horas em terras panamenhas, após uma viagem de seis, nos permitiu conhecer o centro histórico, e o Canal do Panamá, construído para a travessia de navios entre o Atlântico e o Pacífico. A cidade surpreende pela suntuosidade e pelo desenvolvimento. Vê-se ali um canteiro de obras sobre o qual erguem-se arranhecéus das mais variadas formas. Alguém do grupo a chamou de “Dubai dos trópicos”. Passamos a ter uma ideia do contraste que encontraríamos no nosso próximo destino.

Às 19:30h pousamos no aeroporto Jose Martí, em Havana. Depois de enfrentarmos certa burocracia, entramos oficialmente no país e fomos para um espaço onde se podia trocar euros por CUC (peso cubano), cujo valor equivale ao dólar americano. Dalí se podia ver cubanos, provavelmente moradores de ouros país, sendo recebidos por parentes, em um clima de aparente excitação, talvez por causa do feriado de 1º de maio, data tão importante para eles. Uma coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de eletrodomésticos, principalmente TVs de LCD trazidas por essa pessoas. Do lado externo do aeroporto, Audis, Mercedes e BMW’s, novos, trabalhando como taxis, também nos surpreenderam. Contratamos uma Van que nos levou até o Centro da capital. Ali o grupo se dividiu. Eu e mais três companheiros nos hospedamos num casarão, típico de Havana Velha. À noite, um rápido passeio pelas redondezas, um lanche, e cama para descansar de uma jornada de quase 24 horas até nosso sonho.

No dia seguinte, café da manhã e conversa com os cubanos (eles sabem tudo das novelas brasileiras), e outra surpresa: chegaram para se hospedar ali um grupo de jovens americanos. Pela manhã fomos conhecer o Capitólio, Teatro Municipal de Havana, La Floridita e almoço num restaurante ao ar livre, com lagosta, mojito e música tradicional cubana ao vivo (o ponto alto do show foi a minha participação, cantando El Cuarto de Tula – um clássico do Buena Vista Social Club). Após o almoço, contratamos uma kombi para nos levar para a cidade de Varadero, há duas horas de Havana.

Permanecemos por três dias naquele paraíso banhado pelas águas azul turquesa do Mar do Caribe. Ali é possível encontrar turistas do mundo inteiro, e cada vez que algum deles descobria que éramos brasileiros, logo começavam a cantar: “ai seu eu te pego, ai se eu te pego...”. Única decepção que tivemos naquele lugar, embora a comida oferecida pelos hotéis também não sejam muito boa. No dia 30, à tarde, voltamos para Havana na expectativa do desfile de 1º de maio. Hospedamos-nos na casa de uma senhora solteirona de uns 50 anos, tresloucada, bipolar e engraçada. Enquanto o restante do grupo foi cambiar dinheiro no aeroporto, fui sozinho conhecer a Praça da Revolução, onde estão os memoriais à Jose Martí, Camilo Cinfuegos e Che Guevara.

No dia seguinte, levantamos às 6h da manhã e nos encaminhamos ao local onde ocorreria o desfile do Dia do Trabalhador. Ficamos assustados com tanta gente (mais de 1 milhão), e o que mais nos tocou foi o envolvimento da população com as causas socialistas, com a solidariedade dos povos de outros países em relação ao embargo econômico e com a negação ao capitalismo. O restante dos dias foi de turismo pela capital: Museu da Revolução, Malecón, Praça das Armas, Universidad de Havana, bares, restaurantes, livros, charutos, run e música.

A experiência cubana significa uma espécie de passeio pelo tempo, um mergulho na história da América Latina, em sua luta contra a colonização espanhola, da qual surgiram mitos como Simon Bolívar e Jose Martí. É ter contato com um povo que sofre com as agruras de um bloqueio econômico, mas que ainda carrega na cabeça os louros da vitória de uma revolução que derrubou os domínios imperialistas e que mitificou nomes como Fidel Castro, Camilo Cinfuegos, Che Guevara e Raul Castro. Ir a Cuba é ver acesa, ainda, uma pequena chama da Guerra Fria, da Sierra Maestra, de Playa Girón, da Rede Vespa, das lutas da esquerda marxista, de um socialismo que ainda insiste em sobreviver em meio a um capitalismo que ferve ao seu redor. É rever os “áureos” tempos pré-revolucionários dos cassinos, dos carrões da década de 50 e dos cabarés, como o lendário Buena Vista Social Club. É reviver uma época em que a máfia americana, comandada por Al Capone, fechava hotéis cinco estrelas, em Havana, para noitadas regadas a run, charutos, mulheres e shows de Frank Sinatra.

Tomar um daiquirí sentado ao lado da estátua de Ernest Hemingway, em La Floridita, ou um mojito em frente ao mar do Caribe, em Vadero; fumar um autêntico Monte Cristo em La Bodeguita Del Médio; passear em um Ford 1950; assistir o pôr do sol no Malecón; comprar caixas de charutos e run Havana Club, livros e camisetas com um rosto de Che Guevara; hospedar-se na casa de um nativo e conversar com ele por horas ao som de música cubana. Tudo isso só se pode fazer ali. Em Cuba, é possível experimentar os piores papeis higiênicos e a melhor música do planeta, os piores sabonetes e a melhor lagosta, os piores ônibus e a melhor medicina do mundo.

Percebi que tudo o que depende da vontade, de força e do talento daquele povo, eles procuram fazer da melhor maneira possível, o resto foge ao seu controle, já que há um bloqueio internacional imposto pelos EUA que proíbe a comercialização de qualquer produto com Cuba, seja para eles comprem ou venderem. O que posso dizer é que, com todas as dificuldades que enfrentam os habitantes daquela pequena ilha, ele se dignam em dizer que seus índices de mortalidade infantil são menores que dos EUA e que, dos milhões de pessoas que vão dormir essa noite na rua, em todo o mundo, nenhuma é cubana.

terça-feira, 13 de março de 2012

A mulher e sua luta por um espaço na sociedade




Qual é o papel da mulher na sociedade? Esse pergunta merece freqüentar a pauta das principais discussões que recorrem sobre o tema, antes, durante, e depois do “8 de março”. As comemorações, via de regra, recaem sempre em apelos estéticos ou com fins comerciais. Esse paradigma da mulher corpo, da mulher símbolo sexual, “do lar” ou cliente potencial de lojas de roupas e cosméticos, põe em segundo plano a importância da participação da mulher na sociedade, na política, nas ciências, nas artes, na economia e na própria história da humanidade, como nas lutas por liberdade, igualdade e justiça.

O sexo feminino enfrentou séculos de subserviência e de submissão em relação ao homem. Houve um tempo em que a mulher não podia trabalhar, estudar, votar, assumir funções públicas e nem mesmo andar ao lado do homem, talvez, no máximo, um passo atrás. A ela cabia a função de cuidar dos filhos e da casa. Sua serventia não ia além das funções domésticas, de mãe e de esposa, servindo ao marido, do ato de tirar-lhe as botas à obrigação sexual.

Mudar essa situação era o seu grande desafio. Não lhe bastava, portanto, um grito de independência e liberdade contra aquele quem lhe oprimia. Era necessário quebrar uma cultura milenar. Cabia a ela derrubar paradigmas, tabus e estereótipos criados em torno do papel da mulher na sociedade. Para isso precisaria enfrentar uma sociedade machista, uma igreja ultraconservadora e séculos de estagnação social, em meio à qual ela se encontrava subjulgada.

Pode-se dizer que a guerra foi uma grande aliada da mulher nessa independência. Como a composição das forças militares eram cem por cento formada por homens, cabia a elas assumirem funções industriais, inclusive na fabricação de armas e apetrechos bélicos. Estava, portanto, vencida a primeira batalha, que obviamente não ocorreu nos campos de guerra, mas no mercado de trabalho.

E assim as mulheres vêm, aos poucos, conquistando seu espaço na sociedade e tornando-se cada vez mais importante no contexto geral da vida social. O direito de trabalhar, de votar, de candidatar-se e de assumir funções, que antes cabiam exclusivamente aos homens, foram conquistas que as colocaram em seu merecido lugar e que reafirmaram a força do sexo feminino, algo que vai muito mais além do modelo pobre e vulgar que a sociedade insiste em querer lhes atribuir.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ENCONTRANDO A PAZ NA TERRA DE MILHO VERDE


A relação entre homem e terra existe desde que o homem é homem e que terra é terra. Esse amor aumenta, quando nossos antepassados, meio homem meio macaco, com a terra teve contato. Plantou semente, choveu chuva, virou terra um charco. Colheu-se mandioca, beterraba, jenipapo... Brotou Jujuba, couve-flor, abóbora madura. Criou-se, então, a agricultura.

Revolver a terra, tirar dela o barro, construir moradia, colher o alimento de todo dia. Dos serviços mais básicos e certos à inspiração do poeta que cria e lhe remete versos, tudo nos é dado pela terra. Dos quatro, ela é o primeiro elemento, seguido da água que é rio, do fogo que é calor e do ar que é vento. Terra é montanha, é firmamento, planeta. Terra molhada é boa, terra sem chuva é seca. Terra é mãe, é avó. Terra é chão, é pó. Pó que viemos e ao qual voltaremos.

Mas de repente tudo mudou na cabeça da gente. Namoro do homem com a terra acabou. Solo macio ficou duro, escuro. Asfaltou. Charrete virou auto. Rua de terra virou asfalto. Tudo sem graça. Poesia sem rima. Minhoca por baixo, carro por cima. O verde apagou, ficou cinza. A mata ficou que é concreto só. Uma tristeza de dar dó. Prédio agora é “mato”. Gente por cima, gente por baixo... O rio ficou triste e chato. Sujeira das fábricas, esgoto dos vasos. A chuva que entrava na terra e nascia em nascente, agora enche em enchente. Mata gente. O canto do bem-te-vi já não há, é buzina daqui, sirene de lá. O ar não dá pra respirar. Vizinhos não conhecem uns aos outros. Cisma-se com tudo, desconfia-se de todos.
Oh natureza, onde está sua cor, sua beleza, sua paz, seu sabor?

Procuro daqui e dali. Inda hei de achar. Parto em busca de ti. Devorando o horizonte cheguei ao alto daquele monte. E você lá estava, linda como esperava encontrar. Pura e original. As matas em seu verde, o rio em seu caudal. Um pequeno paraíso chamado Milho Verde, cidade, vila ou arraial. Nesse lugar água se bebe na mina, fruta se come no pé, ar puro se respira e oração se reza com fé.

Cama lá é rede, rua é de terra, grama é tapete, fechadura é cancela. Lá, vizinho se conhece, conversa, versa. Tudo se resolve num dedo de prosa. Gado é no pasto, milho é na roça. Pinga é da boa, cigarro é de palha. Má notícia não se espalha. Folia de reis, moda de viola... Isso pra acabar não tem hora. O que não falta é assunto. Ali se bebe, dança e tem comida pra todo mundo. Tudo se aproveita. Da fruta e da folha faz-se uma receita. Cabaça pequena vira cumbuca, se é grande vira cuia. A pinga vai pra goela, a reza pro santo e o mau agouro prá’s cucuia. Barro vira panela, lenha vira fogo, bambu vira pinguela. Cerca é besteira, planta-se um pé de tomate, uma trepadeira... Cipó vira corda. Cavalo se monta, porco se engorda. Conta lá não se anota: Ou se tem honra pra comprar a prazo ou se tem dinheiro pra pagar com nota.

Tudo isso é lá em Milho Verde, o paraíso que flerta com o céu, enquanto Deus responde ao flerte: Vê-se esse amor no pôr do sol, no nascer da lua. O vento brinca com os galhos, o universo se insinua... Passarinho lança voou... Moça olha na janela... Cachoeira ora é água ora é pedra. O sol pensa que é verão, as flores que é primavera. Gerações vêm e vão, mas lá o tempo espera. É paz que não termina. Amor do homem com a terra parece enraizado, vivo como água da mina, firme como árvore de jatobá. Tudo isso se vê por lá. Quero voltar a milho verde, deitar-me na rede numa noite de luar. Rever as estrelas, aqueles olhosinhos de Deus que são mais numerosos ali que em qualquer outro lugar.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Algumas considerações sobre a Morte de Osama e o terrorismo no mundo


1º - Ninguém matou mais gente no mundo que os EUA, por meio das suas intervenções militares, em sua maioria, questionáveis.
2º - O maior ato de terrorismo da história foi cometido pelos EUA, com as bombas atômicas em Hiroshima e Nagazak. Alvos “civis”. Milhares de “inocentes mortos”, entre eles: crianças, mulheres e idosos. Soma-se a esses, as gerações posteriores que morreram ou nasceram com imperfeições por causa da radiação.
3º - Bush ordenou a invasão do Iraque sob o argumento de que havia ali armas de destruição em massa. Nada foi encontrado. Naquele país, milhares de pessoas já morreram graças à invasão americana.
- Por tudo isso, para mim, são terroristas atacando terroristas, assassinos matando assassinos. Os americanos comemoram pateticamente a morte de Osama, assim como os islâmicos saíram às ruas por ocasião do 11 de setembro. Na minha opinião, entre a Al Qaeda e a Cia há apenas diferenças ideológicas.

Os EUA estão fazendo no Oriente Médio aquilo que sempre fizeram em várias partes do mundo: a aplicação da força para neutralizar a adversidade. Esta campanha covarde que vem destruindo o Iraque e matando diariamente milhares de civis inocentes só não é considerada um fiasco total porque eles agora têm petróleo. Assim, portanto, vejamos o histórico das intervenções militares (que teve início com o chamado Big Stick) daqueles que se autodenominam protetores do mundo:
A Guerra da Anexação, a partir de 1846, desencadeou a ocupação do Texas – área de 690.000 km2 pertencente ao México desde 1821 – e da Califórnia, com seus 411.012 km2, na costa do Pacífico, pelos americanos.
Em 1914, 23.000 marines estadunidenses desembarcaram em Tampico, no México, e apoderaram-se de oito milhões de dólares dos cofres da alfândega. Em 1916, intervieram na República Dominicana e lá permaneceram até 1924. Em 1963, voltaram a intervir naquele país. El Salvador foi invadido em 1921. Em Honduras, no ano de 1924. Em julho de 1915, com o propósito de querer ensinar democracia aos haitianos, voltaram àquele país onde permaneceram por 19 anos.
Entre os dias 6 e 8 de agosto de 1945, aviões da Força Aérea norte-americana (USAF) atacaram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, utilizando armamento nuclear, provocando milhares de mortes no seio da população civil japonesa. Entre os anos de 1961 e 1975, os estadunidenses engajaram-se na Guerra do Vietnã como aliados dos sul-vietnamitas. Os norte-americanos perderam, além da guerra, 55 mil homens.
No ano de 1965, uma tropa composta por 35 mil fuzileiros e pára-quedistas desembarcaram em São Domingo (República Dominicana) para impedir a escalada comunista.
Em maio de 1954, aviões estadunidenses bombardearam as cidades de Porto Barrio e Porto São José, na Guatemala. Em 17 de abril de 1961, devidamente autorizada pelo presidente John Kennedy, a CIA organizou a invasão de Cuba pela Baía dos Porcos. Foram derrotados em menos de 72 horas.
A intervenção no Chile e a deposição do presidente Salvador Allende, em setembro de 1973.
Na data de 23 de outubro de 1983, os americanos bombardeiam posições sírias no Líbano.
Em 25 de outubro de 1983, cerca de 1.900 soldados americanos desembarcam na pequena ilha de Granada. No dia 15 de abril de 1986, os EUA bombardearam bases militares em Trípoli e Bengazi. Em 20 de dezembro de 1989, os EUA invadem o Panamá com 24.000 marines que se somaram aos 12.000 permanentemente estabelecidos naquele país.
Fizeram a “Tempestade no Deserto” (ataque aéreo durante a Guerra do Golfo) em 1991.
No ano de 1993, o presidente Bill Clinton ordena um ataque a instalações militares iraquianas. Em 1998, na África, bombardeios simultâneos são feitos contra uma base islâmica no Afeganistão e uma fábrica de remédios em Cartum, suspeita de produzir armas químicas.
Em 2001, atacam o Afeganistão para tentar encontrar os possíveis responsáveis pelos ataques às torres gêmeas. Agora destroem o Iraque por motivos contestáveis.
E o mais engraçado nessa história toda é que a mídia pró-EUA chama de terroristas aqueles que têm seu país invadido, que vêm suas casas serem destruídas, suas mulheres, seus pais e suas crianças serem mortos, e que contra isso usam das armas que têm para lutar pela soberania do seu país e para a proteção dos seus. E ainda assim somos obrigados a engolir, diariamente, a cultura americana através das telas da nossa televisão e das salas de cinema. A influência é tamanha que nas tradicionais festas juninas não se vê mais caipiras com chapéu de palha e calças remendadas, e sim cowboys com coletes de couro, botas bico fino e chapéu à John Wayne.
As invasões, sejam elas armadas ou culturais, são meios pelos quais os americanos acabam nos convencendo de que eles realmente são os “heróis do mundo” e que nós nada mais somos do que passivos e alienados súditos.