quinta-feira, 7 de agosto de 2014

DIREITA X ESQUERDA

Imagem da histórica "Batalha da Maria Antônia.

- Às vésperas de mais uma eleição para presidente, acirram-se as velhas discussões entre direita e esquerda no Brasil. Nesse embate, muitas pessoas se posicionam sem saber sequer o que cada lado representa. Para tentar identificar quem é quem, vamos à história:

Quando Pedro Álvares Cabral gritou “terra à vista!”, abrindo caminho para os portugueses catequizarem nossos índios, comerem nossas índias e nos colonizarem, instalou-se a direita no Brasil. Com a vinda da Família Real, a direita ganhou poder. Quando o país foi dividido em Capitanias Hereditárias, a direita ganhou território. Quando essas capitanias foram divididas em sesmarias e doadas aos homens que dizimaram os índios daquela região, nasciam ali os grandes latifundiários de direita, que, posteriormente, subdividiram essas terras e as legaram aos seus herdeiros, que viraram coronéis, filhos de coronéis, e os netos dos coronéis que hoje se espalham por aí.

No momento em que Tiradentes e sua turma manifestaram-se contra, entre outras coisas, a derrama e o domínio português, dentro da chamada Inconfidência Mineira, na segunda metade do século XVIII, nascia a chama da esquerda no país. Não que eles necessariamente fossem de esquerda, mas plantaram o que poderíamos chamar de conceito ideológico da esquerda. Naquela época, a Coroa Portuguesa conseguiu abortar o movimento dos inconfidentes, assim como vem tentando impedir toda tentativa de mudança no status quo vigente desde o período imperial. Esse conceito lançado pelos inconfidentes pôde ser identificado também no movimento republicano e abolicionista (quando se tinha, do outro lado, os escravocratas de direita).

Pela América Latina, figuras como Simóm Bolívar, San Martín e José Martí se entregam a sangrentas batalhas da esquerda contra o domínio espanhol sobre os países dessa região. Na Europa, explode a Revolução Francesa, que a princípio era de esquerda, mas depois que os burgueses tomaram o poder, virou de direita. Marx e Engels lançam o Manifesto Comunista (inspiração para a esquerda). Adam Smith lança o conceito de liberalismo e a teoria da Mão Invisível (inspiração para a direita).

Durante boa parte do século IXX e XX, o Brasil viveu sobre a influência da cultura francesa, desde a moda, passando pela arte, comportamento, etc. A Belle Époque parisiense contagiava a sociedade burguesa e pequeno-burguesa brasileiras. - Alguns livros de histórias trazem relatos de que em certos salões de festa do Rio de Janeiro a língua oficial era o francês. - Dessa forma, a direita burguesa tupiniquim, que já carregava influências da Corte Portuguesa, passa a absorver os padrões estéticos da Cidade Luz, o que a obrigava a não aceitar, desde aquela época, a tipos barbudos e com um dedo a menos na mão, muito menos os que não saibam falar francês ou inglês.

Em 1922, acontece em São Paulo a Semana de Arte Moderna, que derrubou os quase indeléveis cânones artísticos praticados em todo o mundo, desde o Renascimento Italiano. Estava lançada a arte genuinamente brasileira. O ato de rebeldia de Anita Malfati, Oswald de Andrade e Cia, causou a ira dos críticos de direita e o aplauso da esquerda. Durante a primeira metade do século XX, a revolucionária Coluna Prestes foi perseguida até a sua extinção. Durante esse período, até os tempos atuais, todo aquele que ousou imprimir mudanças no país, de alguma forma, foi tirado de cena. Que o digam o PCdoB e os presidentes Getúlio Vargas, que não aguentou a pressão e suicidou; Juscelino Kubitcheck, assassinado; Jânio Quadros, que renunciou, e João Goulart, deposto do cargo de presidente, após ser eleito democraticamente pelo voto popular.

No início dos anos 1960, a direita católica brasileira inicia a “Marcha da Família com deus pela Liberdade” contra o que chamavam de “avanço comunista”. Isso deu base para que, em 1964, a extrema direita do país, que conspirava desde a época de Getúlio, instalasse uma ditadura militar no Brasil. Na medida em que a esquerda tentava resistir a isso, seus membros eram perseguidos, presos, torturados e assassinados. Nessa época, a Rede Globo, que era uma emissora de TV de médio porte, agiganta-se, a partir das benesses dispensadas a ela pelo regime vigente, em troca de apoio.

Em 3 de outubro de 1968, acontece a famosa “Batalha da Maria Antônia”, marcada por um confronto entre estudantes de esquerda da Faculdade de Filosofia e Letras da USP e alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de direita. Na época, as duas instituições, localizadas na rua Maria Antônia, região central de São Paulo, eram vizinhas. A turma da USP lutava contra a ditadura, enquanto o pessoal do Mackenzie a defendiam. Mais uma vez se tinha, de um lado, reacionários (direitistas que se opõem à mudanças), e de outro, revolucionários (esquerdistas que lutam para derrubar o status quo).

Também em 1968 os jornalistas Roberto Civita (de direita) e Mino Carta (de esquerda) criam a revista Veja. Mais tarde Mino vende a sua parte do semanário e lança a revista Carta Capital. Civita anuncia a sociedade com o Naspers, grupo de comunicações sul-africano, vinculado às elites africâneres que legalizou o criminoso regime do apartheid.

Em 1979 estoura a Greve Geral do ABC Paulista. No dia 27 de março, o operário sindicalista “Lula”, comanda a assembleia que reuniu 70 mil trabalhadores no Estádio de Vila Euclides. Ali ele negociou uma trégua de 45 dias, acordada entre os patrões e a diretoria do Sindicato. A trégua previa a suspensão da greve e a reabertura das negociações. Em 10 de fevereiro de 1980, Lula ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, que representava a união de centenas de milhares de pessoas ligadas aos movimentos sindicais, comunidades eclesiais de base da igreja católica, grupos de esquerda e intelectuais.

Começam os anos 80 e a esquerda volta às ruas com a campanha pelas Diretas, dessa vez, com o apoio popular. Pelo voto indireto, Tancredo Neves é eleito presidente, mas morre antes de assumir. Em seu lugar, toma posse José Sarney. Em 1989, o povo tem a chance de eleger seu primeiro representante pelo voto direto, desde a redemocratização, mas acaba caindo na ilusão de um personagem, chamado de “Caçador de Marajás”, criado por certa Rede de Televisão (a mesma que manipulou a edição do debate entre Lula e Collor, favorecendo o candidato da “direita”, Fernando Collor de Mello, eleito presidente, cargo em que perderia mais tarde, pelo processo de impeachment.

Após três tentativas, Lula foi eleito presidente da República para o período de 2003 a 2006 e reeleito para o segundo mandato, de 2007 a 2010. Durante os seus oito anos de governo, foram gerados 15 milhões de empregos. Entre 2003 e 2009, 27,9 milhões de pessoas saíram da pobreza, enquanto 35,7 milhões ascenderam à classe média. Em 2010, Dilma Rousseff, ex-guerrilheira de esquerda, é eleita a primeira mulher presidente do Brasil. Uma das suas primeiras ações no governo foi lançar o programa “Brasil sem miséria”, que já tirou mais de 20 milhões de pessoas da extrema pobreza.

Hoje, a TV, que cresceu com a ajuda da ditadura de direita, e a revista, que se aliou à racistas africanos e é bancada por uma federação de indústrias de São Paulo, que por sua vez foram obrigadas a conceder uma série de benefícios aos trabalhadores daquele estado, depois da greve do ABC, liderada por Lula, fazem campanha contra Dilma Rousseff, candidata do PT, partido de esquerda, que Lula ajudou a criar, e que transformou um país de terceiro mundo na sexta economia do mundo, pagando a dívida externa e ajudando a criar um novo FMI.

Texto: Luciano Soares.

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